2012 – 23º Festa da Lavadeira

UMA GRANDE DAMA DA CULTURA PERNAMBUCANA

No Ultimo dia 01 de maio, na apresentação na 27 Festa da Lavadeira – Recife – PE, toda Nação foi homenagear a nossa mais antiga dama de paço de baque virado, falecida no final de abril, e o nosso Luiz Eurico, escritor e coordenador técnico do Ponto de Cultura Almirante do Forte, nos proporcionou esse belo texto(que pode ser visto também no seu blog):

http://euliricoeu.blogspot.com.br/2013/04/dona-ana-carmelita-dama-do-paco-da.html

UMA GRANDE DAMA DA CULTURA PERNAMBUCANA
Quem vê as enormes torres do pólo médico da Ilha do Leite, nem imagina como eram aquelas terras. Terras? Ali quase não havia terra. No início do século XX, só se viam pequenos bancos de areia, três pequenas casas de alvenaria e alguns palafitas. No meio dessa pequena aglomeração de mocambos (mocambo era o nome que na época se dava aos casebres ribeirinhos do Recife), erguia-se a pequena capela de Nossa Senhora da Saúde, que até hoje está lá, resistindo entre os espigões da Praça Miguel de Cervantes. Pois é, o antigo banco de areia hoje é praça e no entorno já não se vê o antigo manguezal. Os grandes hospitais invadiram a margem do Rio Capibaribe e a cidade expandiu -se sobre o antigo lugarejo de pescadores, carvoeiros e outros ofícios, todos de maioria negra.
Ali nasceu a nossa Carmelita Deodoro da Silva, nome de batismo, pois, na verdade ela usava Ana Carmelita Teodoro. O seu pai, Manuel Teodoro, a chamava carinhosamente de “Calimita”…
Nós a conhecemos por Sinhá Nana, em casa de meus avós, quando ali ficou agregada, nos idos de 1960. Recentemente, o povo do Maracatu a conhece por Don’Ana.
Logo Don’Ana e família seriam expulsos da Ilha do Leite, passando a residir na periferia. Tempos sombrios em que a política do Estado Novo demolia os mocambos e a cidade crescia, sufocando os mais pobres. Esse filme a gente ainda vê hoje em dia…
Don’Ana foi viver com meus avós, amigos desde infância, no bairro humilde do Pacheco. Lembro dela em sua azáfama diária, lavava, varria, e engomava os paletós de meu avô assoprando as brasas de um pesado ferro de passar. Era uma gigante para trabalhar. Não descansava. E além disso, cuidava com desvelo das crianças. Quando nos levava os Grupo Escolar, apertava bem na nossa mãozinha, com medo de nos perder. Era uma cuidadora amorosa e fiel.
Mas, quando se aproximava o carnaval, Don’Ana sumia. Era o maracatu, dizia minha avó. Ela some nos dias que antecedem a festa e só volta na quarta- feira de cinzas. Eu, menino curioso, ficava intrigado com aquilo. Para onde ia a nossa Sinhá Nana?
Hoje eu sei. Ela era a dama do paço ou do “paaço”, em português arcaico. Paço, quer dizer, palácio. Lugar onde vive a realeza. E Don’Ana era a dama do paço da corte do maracatu. A dama que dança com a calunga, a boneca que representa a parte mística dos maracatus. E desde sempre foi a dama exclusiva do Maracatu Almirante do Forte. Jamais abandonou essa nação, que ela amava com toda a pureza d’alma. E como era puro o coração de Sinhá Nana!
Essa pureza, junto com os costumes da época fez com ela, ao engravidar do filho único, sumisse da casa de meus avós, que, por essa época, já moravam em Tejipió. Don’Ana, grávida, foi acolhida pelo fundador do Almirante, Mestre Antonio José da Silva, o pai do nosso Mestre Teté, e nunca mais saiu do convívio dessa família, que a tinha como uma segunda mãe. Ainda tentaria morar em casa na nora. Mas o seu lar seria definitivamente a sede do Almirante do Forte, atual residencia do Mestre Teté.
O tempo passou. Meus avós faleceram. E por décadas não mais tivemos notícias da nossa Tia Nana.
Reencontrei Dona Ana em meados de 2008, por ocasião em que o Mestre Teté nos convidou para participar do Projeto do Ponto de Cultura Almirante do Forte. Dona Ana, já centenária, já não desfilava com o cortejo. Mas estava sempre presente nos ensaios do grupo percussivo. Afinal, ela morava ali mesmo, na sede do Almirante. Quem não há de lembrar daquela sorridente velhinha, olhos apertadinhos, a dançar miudinho, num cantinho da sala principal? O maracatu era o destino de Don’Ana. Não tinha mais notícias do filho, que casara e morava no interior. Sem outros parentes, a sua família era a nação Almirante. E ali vivia cercada de carinho e de cuidados, por quase 60 anos.
Hoje, na pátria espiritual, sei que Don’Ana, com aquela simplicidade, contempla o seu povo, a sua nação, uma das nações mais tradicionais de Pernambuco, com a certeza que a sua gente vai segurar no leme com fé e fazer o Maracatu Nação Almirante do Forte navegar para muitas vitórias, nesse oceano bravio, que é a nossa cultura popular.
Até um dia, Sinhá Nana!
Que a tua energia esteja sempre com nossa Nação!
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